sexta-feira, 24 de julho de 2009

Presidente deposto retorna a Honduras pela primeira vez

da Folha Online

O presidente deposto de Honduras, Manuel Zelaya, retornou nesta sexta-feira ao território do país, pela primeira vez desde que foi tirado do poder. Segundo a rede de TV americana CNN e a agência de notícias internacional France Presse, Zelaya cruzou a fronteira, a pé, na altura da localidade de Las Manos, na Nicarágua. "Tenho direito de voltar para minha casa, para minha família e voltar à Presidência", disse o presidente deposto à CNN, pouco antes da entrada em Honduras.

Em entrevista à CNN, o ministro de Segurança do governo interino, Mario Eduardo Perdomo, confirmou estar pronto para prendê-lo, sob pena de "cair em uma irresponsabilidade". Sobre o fato de Zelaya não ter sido preso imediatamente após cruzar a fronteira, o ministro afirmou que as forças de segurança irão agir "com compreensão, porém com firmeza". "Temos uma preparação e sabemos como fazê-lo e quando fazê-lo", afirmou o ministro.

Informações preliminares indicam que a barreira de policiais e militares que guardava o posto fronteiriço entre Nicarágua e Honduras recuaram. Zelaya chegou a conversar com um militar hondurenho, antes de cruzar o posto. Na comitiva de Zelaya está o chanceler da Venezuela, Nicolás Maduro.

Zelaya pode ser preso porque é acusado de 18 crimes vinculados à ação que levou à sua deposição, a tentativa de promover uma consulta sobre uma Assembleia Constituinte que Justiça e Congresso consideram ilegal. Com a consulta, ele pretendia instalar a reeleição.

Não foi a primeira vez que o presidente deposto tentou retornar a Honduras. No último dia 5, Zelaya tentou aterrissar na capital hondurenha, Tegucigalpa, porém a pista foi bloqueada por militares. Confrontos com as forças de segurança deixaram dois manifestantes mortos.

O governo interino liderado por Roberto Micheletti, além de prometer deter Zelaya, impôs um toque de recolher a partir das 12h (15h em Brasília) desta sexta-feira até as 4h30 de sábado (7h30 em Brasília), nas cidades da fronteira de Honduras com Nicarágua e com El Salvador.

Nesta quinta-feira (23), Zelaya afirmou considerar "fracassada" a tentativa de mediação entre ele e o governo golpista conduzida pelo presidente costa-riquenho, Óscar Arias.


Esteban Felix/AP
Manuel Zelaya concede entrevista à CNN, por celular, ao se aproximar da fronteira entre Nicarágua e Honduras
Manuel Zelaya concede entrevista à CNN, por celular, ao se aproximar da fronteira entre Nicarágua e Honduras

Histórico

Zelaya foi deposto nas primeiras horas de 28 de junho, dia em que pretendia realizar uma consulta popular sobre mudanças constitucionais que havia sido considerada ilegal pela Justiça. Com apoio da Suprema Corte e do Congresso, militares detiveram Zelaya e o expulsaram do país, sob a alegação de que o presidente pretendia infringir a Constituição ao tentar passar por cima da cláusula pétrea que impede reeleições no país.

O presidente deposto, cujo mandato termina no início do próximo ano, nega que pretendesse continuar no poder e se apoia na rejeição internacional ao que é amplamente considerado um golpe de Estado --e no auxílio financeiro, político e logístico do presidente venezuelano, Hugo Chávez-- para desafiar a autoridade de Micheletti e retomar o poder.

Isolado internacionalmente, o presidente interino resiste à pressão externa para que Zelaya seja restituído e governa um país aparentemente dividido em relação à destituição, mas com uma elite política e militar --além da cúpula da Igreja Católica-- unida em torno da interpretação de que houve uma sucessão legítima de poder e de que a Presidência será entregue apenas ao presidente eleito em novembro --as eleições estavam marcadas antes da crise.

Mas a pressão externa não é apenas diplomática, e o governo de Micheletti começa a enfrentar a suspensão de financiamentos externos cruciais para as finanças de um dos países mais pobres do continente. O impacto desses cortes, que se somam aos efeitos da crise econômica mundial, é um dos elementos que pesam nas decisões do governo interino em meio à crise.

Nenhum comentário: