quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Eleito em votação histórica, Obama agora terá de enfrentar crise

colaboração para a Folha Online

Depois de uma eleição histórica, o democrata Barack Obama foi eleito o primeiro presidente negro dos Estados Unidos e agora será o responsável por tirar o país da maior crise financeira desde a Grande Depressão, nos anos 1930.

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Obama soube usar campanha virtual em seu favor; assista
Leia análise sobre a vitória de Obama

Na Casa Branca, com o apoio da maioria conquistada no Congresso, Obama toma posse com o peso da desaceleração econômica e o fantasma da recessão assombrando os americanos. No mundo, ele assume com o peso de suas promessas de ampliar relações, encerrar a Guerra do Iraque e derrotar a Al Qaeda no Afeganistão.

Gary Hershorn/Reuters
U.S. President-elect Senator Barack Obama (D-IL) arrives with his daughter Sasha to speak to supporters during his election night rally after being declared the winner of the 2008 U.S. Presidential Campaign in Chicago November 4, 2008. REUTERS/Gary Hershorn (UNITED STATES) US PRESIDENTIAL ELECTION CAMPAIGN 2008 (USA)
Barack Obama chega em comício de sua vitória; ele enfrentará grandes desafios

"O caminho será longo. Nossa subida será íngreme. Nós talvez não cheguemos lá em um ano ou mesmo em um mandato", admitiu o presidente eleito, em seu discurso de vitória a 200 mil espectadores no parque Grant, em Chicago.

Obama foi eleito em uma votação que teve comparecimento recorde nos EUA. Segundo
as estimativas do site Real Clear Politics, a disputa levou quase 66% dos 153,1 milhões eleitores registrados às urnas. Isso significa a maior taxa de participação desde 1908, quando restrições impediam todos os americanos de votar.

O democrata, apontam os analistas, entusiasmou os eleitores americanos com as promessas de mudança em um ano que o presidente George W. Bush enfrenta as piores taxas de aprovação das últimas décadas. Agora, terá de provar como, exatamente, trará novos ares para Washington.

"Ele vai chegar no governo e perceber que não tem dinheiro para as promessas que fez e aí estará diante de decisões difíceis e impopulares", afirma Donald Kettl, professor de ciência política da Universidade da Pensilvânia.

Obama enfrentará não apenas o curto orçamento, mas o desafio de transformar suas promessas de campanha sobre impostos, saúde, energia e educação em um grupo de prioridades do Legislativo para os seus dois primeiros anos no poder.

A habilidade de Obama para administrar as relações com os líderes democratas no Congresso, com os republicanos, e com congressistas liberais com agenda própria também terá forte influência sobre seu mandato.

Economia

Jae C. Hong/AP
President-elect Barack Obama, left, and Vice President-elect Joe Biden celebrate after Obama's acceptance speech at the election night rally in Chicago, Tuesday, Nov. 4, 2008. (AP Photo/Jae C. Hong)
Barack Obama caminha ao lado de seu vice, senador Joe Biden

Se os desafios são muitos, a prioridade de Obama será a economia. O democrata vai se deparar com um país arrasado. O Departamento do Tesouro triplicou suas expectativas de venda de títulos de dívida para ajudar a financiar o déficit orçamentário. Para o trimestre até 31 de dezembro, a projeção é de que o governo tenha de captar US$ 550 bilhões para financiar o buraco no Orçamento. Em julho, a projeção era de US$ 142 bilhões. Entre julho e setembro, o governo captou o recorde de US$ 530 bilhões.

Entenda a crise financeira nos EUA

O déficit é um reflexo da crise financeira pela qual passam os EUA: a bolha no mercado de hipotecas de risco estourou no ano passado, arrastando para baixo os mercados financeiros no mundo todo. Os reflexos na economia já ameaçam o desempenho do país: no trimestre passado, a economia americana teve retração de 0,3%, sinalizando uma recessão --definida como dois trimestres consecutivos de retração do PIB (Produto Interno Bruto).

O governo tentou em fevereiro deste ano estimular a economia com um pacote de US$ 168 bilhões em cheques de restituição de impostos aos contribuintes. A medida teve efeito moderado no segundo trimestre. Em setembro, no entanto, com a quebra do banco Lehman Brothers, a crise ganhou novo fôlego.

Depois disso, o governo americano aprovou um pacote de US$ 700 bilhões para impedir novas quebras. Mesmo assim, a economia ainda patina e corre o risco de afundar: em todos os meses deste ano até setembro a economia americana fechou postos de trabalho e a taxa de desemprego está em 6,1%.

Política Externa

AP
Provável candidato democrata à Casa Branca, Barack Obama, toma café-da-manhã com soldados americanos no Afeganistão
Barack Obama, toma café-da-manhã com soldados americanos no Afeganistão, quando ainda era candidato à Presidência

Embora apenas 9% dos eleitores tenham indicado o terrorismo, segundo pesquisas de boca-de-urna da CNN, um dos principais desafios do governo de Obama é definir o futuro da guerra contra o terror.

Sete anos depois da invasão do Afeganistão pelos EUA, o Taleban e a Al Qaeda intensificam os ataques no vizinho Paquistão em um claro sinal de que não estão dispostos a recuar. E para retomar uma ofensiva capaz de cumprir sua promessa de acabar com a Al qaeda e derrotar Osama bin Laden, Obama precisará do apoio dos aliados europeus, que não sinalizam estar dispostos a investir mais soldados e dinheiro nos conflitos liderados pelos EUA.

O democrata terá ainda que cumprir a promessa de retirar as tropas americanas do Iraque, prioridade "desde o primeiro dia" de seu governo. Embora a guerra tenha se tornado impopular entre os americanos, que não entendem os gastos de US$ 10 milhões mensais com um conflito externo diante da crise na economia, a redução da violência no Iraque criou um consenso de que a coalizão americana ajudou.

Obama prometeu retirar as tropas em até 16 meses de seu mandato, mas não disse como isso pode influenciar na segurança dos iraquianos e na prevenção do crescimento de ataques terroristas no país, diante de um governo iraquiano ainda em formação.

Teste

Ainda em campanha pelas eleições desta terça-feira, o agora vice-presidente eleito, Joe Biden, previu que o novo presidente seria testado por uma crise internacional. As apostas são que o teste venha do Irã, país considerado inimigo dos EUA e que insiste em manter um programa nuclear, apesar de sanções e críticas duras da administração Bush.

Com as agências de inteligência americanas incapazes de encontrar prova de que o programa nuclear iraniano visa a criação de armas e a pouca efetividade das sanções diplomáticas, Obama terá que enfrentará uma dura decisão sobre uma possível ofensiva militar.

O teste internacional de Obama inclui ainda o progresso das negociações de paz entre palestinos e israelenses. Embora a administração Bush tenha feito um esforço em alcançar um acordo entre os dois povos, as negociações parecem regredir diante da saída do primeiro-ministro israelense Ehud Olmert, um dos principais atores das conversas, sob denúncias de corrupção.

Obama parece reconhecer o tamanho dos desafios que o esperam na Casa Branca. "Haverá atrasos e falsos inícios. Muitos não irão concordar com todas as decisões ou políticas que eu vou adotar como presidente. E nós sabemos que o governo não pode resolver todos os problemas", disse em seu primeiro discurso como presidente eleito.

"Mas eu sempre serei honesto com vocês sobre os desafios que enfrentar. Eu vou ouvir vocês, especialmente quando discordarmos. E, acima de tudo, eu vou pedir que vocês participem do trabalho de refazer esta nação, do jeito que tem sido feito na América há 221 anos --bloco por bloco, tijolo por tijolo, mão calejada por mão calejada".

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